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Antes, arde. Depois, arte. Nunca é tarde pra fazer arte. Rodolfo Mendes é da arte, da música, do humor de sutileza e riso leve. Basta ver o nome de uma de suas bandas: Johnny Sem Telefone. Melhor que abóboras, paralamas e barões assinalados.
Quando construíamos a programação pop da Rádio Geraes FM, Rodolfo era figura carimbada na emissora, por conta de uma paixão comum: o grupo inglês Prefab Sprout, uma de suas mais evidentes influências.
Depois veio Danni Calixto, a gaúcha mais pop que já andou pelos parques de Belo Horizonte.
E Rodolfo é um sorriso musical permanente na cidade. Um talento lapidado com a mestra Cláudia Cimbleris, catalizadora de conexões e (re)inventora de sons.
“A Idade do Tempo”, primeiro solo de Rodolfo, sai num tempo em que os tempos se fundem, confundem, recuam, avançam e dão voltas antes impossíveis de suportar.
Nascido na era randômica da multiplicação dos sons, o disco é de compositor capaz de fornecer munição para essas tantas cantoras atrás de sonoras novidades, num mundo que “tá chamando agora e sempre pra voltar.”
Seja evocando e provocando Fernando Pessoa, com Lô Borges assumindo em parte a voz em “Resistência”; fotografando na busca de euforia as manhãs (“Lentas Horas”); fustigando memórias e estradas sem rumo em “Enquanto Espero” ou convidando Fernanda Takai para dividir a porta aberta pra solidão na agridoce “Longe do Chão”, Rodolfo só garante uma certeza: “pela existência vale qualquer risco” (“A Idade do Tempo”).
Depois de constatar, em “O Buraco é Mais Embaixo”, que os relógios não param por ninguém, o compositor do pop com cérebro evoca Pad MacCaloon em “Pode Ser”, sobre sair por aí como nas melhores canções de jipes audazes e girassóis entre janelas de trens.
Como prova de maturidade, Rodolfo destila um ligeiro fel no cotidiano das “Pessoas”, adota Beto Guedes pra fazer a voz de “O Que Ninguém Ensina”, balada de acampamento com leve sabor beatlestoniano.
“O mundo inteiro pode ser tão pouco”, provoca em “Tão Perto, Tão Longe”, com vocais de Rodrigo Stockler, uma espécie de testamento em carne viva pra dizer que, daqui pra frente, todas liberdades serão possíveis, todos os ponteiros poderão correr além de seu tempo, todas as idades vão se misturar na música na era das misturas e das caudas longas.
Kiko Ferreira
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